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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Valdir Santiago, o poeta-vigilante

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O POETA ENTRE PACOTES E CARRINHOS DO SUPERMERCADO

Créditos para o blog do Dr. Mourão


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"Conheci o Valdir Santiago na Reitoria da Universidade Federal do Ceará. Era vigilante e conversava bem… E, como prestei atenção, ele logo mostrou uns versos que compunha na madrugada. Dizia ele: “os pássaros começam a chegar ao frescor da manhã que se inicia.”
A sensibilidade do escritor não deixava passar aqueles momentos. Registrava em métrica e rimas. Os homens dos gabinetes nem supunham que debaixo daquela farda azul, habitava um poeta.


Falou-me de sua saga em querer ser gente pelo caminho dos estudos. Não conseguiu muito, agora investia nos filhos. Queria vê-los doutores. Quanto a ele, apenas a vontade de um dia publicar um modesto livro. Depois perdi o Valdir de vista. Ele não sabia meu nome, nem quem eu era. E eu, muito menos, quem era aquele vigilante metido a poeta.


Mas o destino apronta surpresas. Um dia eu estava no Pão de Açúcar do Náutico. Escuto um “com licença doutor!”. “Agora estou por aqui. Deixei a Reitoria.” Nem foi preciso eu perguntar pelas poesias. Foi logo metendo a mão no bolso e puxando umas folhas rabiscadas. Eram novos poemas, a sua produção mais recente. E o sonho firme de um dia publicar um livro.


Passados alguns meses, foi o que aconteceu. Valdir veio entregar-me o convite especial de lançamento, feito no Clube Náutico. Com família, televisão e tudo que tinha direito. Momento ímpar de sua vida. Confessou-me depois.


Então, virou rotina o Valdir pegar os pacotes de compras, conversar com os clientes do Supermercado e, se for do gosto do freguês, vende um dos seus livros. Na farda, ele fez um bolso especial onde coloca os exemplares e sai oferecendo. Uma batalha diária… e com certeza, não é o dinheiro que mais o motiva.


O que faz um ser popular, quase anônimo, ter essa paixão tão intensa pelos livros? Por que essa vocação tão extremamente convicta, com prática diária e soberba devoção?
Acredito que Valdir Santiago foi escolhido pelos deuses da lira, da prosa, do escrever. Esses deuses, tão exigentes, querem a dedicação integral de seu súdito. E a recompensa? São muitas. São várias. São infinitas.


Vocês precisam ver o Valdir Santiago falando dos seus livros. Vocês precisam entender o que é encantamento. Ou se ouso dizer, possessão.


Sim. É isso aí… Valdir Santiago foi fisgado pelos deuses das letras e não querem largá-lo. Aí ele vira uma pessoa diferente. Um ente sensível que sabe extrair beleza do seu duro cotidiano.
Um caminheiro das letras e das estrelas. Poeta."

Texto de Antonio Mourão Cavalcante

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

LITERATURA CEARENSE - Ronaldo das LETRAS

Ronaldo das letras fatura R$ 200 mil

Ronaldo Correia de Brito brinca com o xará da bola ao ganhar Prêmio São Paulo

Ubiratan Brasil - ESTADÃO

"Finalmente, um Ronaldo conseguiu ganhar dinheiro no Brasil sem precisar jogar futebol", ironizava o escritor cearense Ronaldo Correia de Brito, na noite de segunda-feira, com um troféu em uma das mãos e um polpudo cheque na outra. Momentos antes, ele foi anunciado como autor do melhor livro do ano passado, Galiléia (Alfaguara), tornando-se o principal vencedor do 2º Prêmio São Paulo de Literatura. Trata-se do melhor incentivo das letras nacionais, pagando R$ 200 mil como prêmio. Na mesma cerimônia, realizada no Museu da Língua Portuguesa, o gaúcho Altair Martins foi eleito o autor estreante de 2008, com o romance A Parede no Escuro (Record), faturando também um troféu e a mesma quantia.

Com uma coloração mais política que a premiação do ano passado - desta vez, o secretário de Estado da Cultura, João Sayad, não era o único membro do governo presente, pois ali também estavam o governador José Serra e o prefeito Gilberto Kassab -, o evento ganhou mais ares de mistério com a decisão de se anunciar previamente dez finalistas em cada categoria e não cinco, como no ano passado. "A nossa intenção é tornar o prêmio cada vez mais escandaloso", disse João Sayad, antes do anúncio dos ganhadores, provocando uma certa surpresa na plateia. "Quando digo ?escandaloso?, é no sentido de chamar atenção para os escritores e também para incentivar a leitura."

O prêmio, de fato, cresceu em apenas um ano - dessa vez, foram 217 romances inscritos contra 146 em 2008. Também cresceu o número de editoras envolvidas, de 55 para 75. "É claro que o valor oferecido aumenta o interesse", comentou Correia de Brito que, em um primeiro momento, não sabia ainda como utilizar os R$ 200 mil. "Vou gastar em sushi", brincou. "Mas não importa apenas a quantia em si, mas a repercussão que ela provoca: por causa dela, mais autores vão se sentir motivados a escrever e mais editoras tendem a publicar. Finalmente, o vencedor conquista a chance de se dedicar um pouco mais à literatura."

Realmente, foi o que aconteceu com o catarinense Cristóvão Tezza que, no ano passado, graças a O Filho Eterno (Record), ganhou os principais prêmios literários do País, totalizando R$ 330 mil, incluídos os R$ 200 mil do São Paulo de Literatura. "Com isso, nós nos aproximamos dos escritores profissionais dos países mais ricos", completou Correia de Brito.

O valor também foi comentado por Altair Martins, de 34 anos, que, depois de várias passagens pelo conto, chegou ao primeiro romance com A Parede no Escuro. "Espero, além de quitar a minha casa, poder diminuir minha carga horária como professor universitário", disse ele, que dá aulas de manhã à noite, na Federal do Rio Grande do Sul. A permanência de Martins no ambiente universitário, porém, não deverá diminuir.

Pois foi durante a preparação de sua tese de mestrado que ele escreveu A Parede no Escuro. "Eu comecei a rascunhar o romance mas não estava satisfeito, quando decidi continuar com a sua escrita ao mesmo tempo em que estudava o esfarelamento do narrador do romance contemporâneo", lembrou Martins, que precisou de 7 anos para dar o ponto final. A experiência foi tão produtiva que Martins pretende repetir a dose e preparar o próximo livro, agora de contos, ao mesmo tempo que faz pesquisa acadêmica.

Martins e Correia de Brito abraçaram-se efusivamente após o nome de cada um ser anunciado vencedor, derrubando concorrentes de grande porte como José Saramago, Milton Hatoum, João Gilberto Noll, Moacyr Scliar e Silviano Santiago. "Antes da cerimônia, fizemos uma brincadeira que o vencedor pagaria o jantar para o outro", comentou Correia de Brito. "Agora, cada um pode cuidar de si."